Viva ao pastelão
Sou curiosa, admito. Quando ouço duas pessoas conversando e posso entender a conversa delas, muitas vezes presto uma indevida atenção, só pra me distrair. É vergonhoso, mas é verdade. Enfim, outro dia no ônibus, dois jovens sentaram no banco em frente ao meu (devo colocar aqui que não eram jovens, jovens. Eram jovens “hipsters”, esse pessoal alternativo que tenta de todas as maneiras possíveis se diferenciar. Nada contra, claro.). Esses jovens começam a discutir sobre uma terceira pessoa, criticando-a pelo seu péssimo gosto para filmes. “Ela veio me dizer que adorou todos os American Pie!”, “Nossa… Ela provavelmente nunca viu um filme anterior a 1990)”.
Em primeiro lugar, posso até concordar com os rapazes: gostar de todos os American Pie pode ser meio duvidoso. Depois do terceiro e antes do último lançado a coisa desandou um pouco. Críticas aos filmes a parte, preciso discordar seriamente desses jovens no que corresponde a “bom gosto” ou qualidade.
Idade não confere qualidade. Ou seja, só porque um filme é preto e branco, de 1935, não quer dizer que seja um filme bom. Sou apaixonada por clássicos e antiguidades do cinema e tenho na minha lista de favoritos pelo menos uns cinco. Mas por favor, né. Essa era de valorização a tudo que é vintage é absurda. Todos os anos excelentes filmes são produzidos, dentro e fora do grande circuito de cinema, independente do ano. Temos atualmente grandes diretores, excelentes produtores e a qualidade dos roteiristas só aumenta, ainda mais agora que ficou muito mais fácil descobrir novos talentos. O que é produzido hoje, por mais que os jovens possam chamar de “vendido” ou “mainstream”, também tem qualidade e pode igualmente nos enriquecer com cultura, tal como os clássicos de “antes de 1990”.
Dito isto, me lembro de colocar outro aspecto: o mundo “mainstream” e essa ideia de que só se obtém cultura com filmes alternativos e oriundos do “submundo”, ou como é mais utilizado, “underground”. Não poderia discordar mais disto. Qual é o problema com o maistream? As formas de comunicação e entretenimento de massa são, afinal, formas de comunicação e entretenimento também! Essa ideia de se menosprezar o que é “popular” como inferior ou sem qualidade é absurdamente preconceituosa e exclusivista. E francamente, aposto que esse jovens que se dizem culturalmente superiores se divertem muito mais assistindo a um tolo “American Pie” do que ao mais complexo e profundo filme do Godard.
É obvio que não estou defendendo aqui que abandonem os clássicos e daqui para frente só se assista os blockbusters americanos. A importância dos clássicos e dos filmes alternativos é inegável e é evidente que não devemos nos limitar a superficialidades, mas a cultura não se constrói apenas de profundas reflexões sobre os dramas humanos. O que defendo aqui é o meu, o nosso direito ao bovarismo, a essa pequena alienação que torna a vida mais leve e fácil de ser vivida. Quero ter o direito de sentar e assistir meus romances sem que me critiquem por ser superficial ou rir horas de um filme absurdamente ridículo e ser acusada de “perder meu tempo”. Vamos acabar com essa ideia de que tudo que fazemos, ouvimos ou assistimos tem que ser necessariamente produtivo ou “culturalmente enriquecedor” (por mais que eu discorde absurdamente desta ideia, tudo pode te enriquecer culturalmente). Não estou a serviço disso, quero rir, quero chorar com uma bela história e também quero refletir sobre ideias subjetivas e abstratas, conhecer novas realidades e me encher de cultura. Não porque tenho que fazer ou porque devo mostrar a todos o quão culta posso ser, mas porque QUERO fazer.
Novamente escrevo aqui meu manifesto: vamos fazer o que nos der vontade, aprender, rir, chorar e fazer tudo isso porque queremos, não para construir uma imagem diferenciada. Te garanto: sua própria personalidade e suas próprias vontades são muito mais únicas e especiais do que isto.
Um beijo,
Thaís Sampaio.
A imperatriz
Adoro fazer compras pela internet, principalmente livros e filmes. Dia desses, depois daquela semana de ansiedade e espera, finalmente chegaram minhas últimas encomendas online. Entre esses produtos estava um DVD, mas não qualquer um, o DVD de um dos filmes que esperei mais ansiosamente para assistir: a terceira parte da linda série Sissi.
Esses três filmes belíssimos são, choquem-se, austríacos e dirigidos pelo famoso (só que não) Ernst Marischka. As produções foram o único trabalho, pelo menos conhecidos, de Ernst (incrível como um nome pode ter quatro consoantes seguidas). Os filmes são: Sissi, de 1955, Sissi: a imperatriz, de 1956 e Sissi e seu destino, de 1957, todos tem como atriz principal a belíssima atriz austríaca Romy Scheneider.
O enredo, como se pode imaginar, é uma tentativa de biografia de Elisabeth Amalie Eugenie von Wittelsbach, ou, como era conhecida, Sissi, imperatriz consorte da Áustria e rainha consorte da Hungria. Sissi é uma menina jovem de 15 anos, princesa da Baviera, que não foi criada para viver em uma corte: muito parecida com o pai, ela gosta de correr, cavalgar e ama os animais e a vida na natureza. E tudo bem em ser assim, afinal, sua irmã mais velha Helena é quem está predestina para os feitos reais e a vida nobre.
E assim acontece: a tia de Sissi, atual imperatriz da Áustria, mãe do imperador, “Francisco José I”, na tradução linda do alemão para o português, convida Ludovica (mãe de Sissi) e as duas meninas mais velhas (Helena e Sissi) para visitarem a corte, com o propósito de organizar o casamento do imperador com Helena.
É claro que o encanto de Elizabeth, com seus doces quinze anos fascina o imperador, que se apaixona pela moça e toma uma importante decisão: casar-se com Sissi, e não com Helena, para quem era prometido. Apesar de discordar e protestar de todas as maneiras possíveis, a mãe de “Franz” nada pode fazer para dissuadir o filho de tal loucura. Também apaixonada por ele, Sissi aceita o pedido e em pouco tempo se torna a nova imperatriz da Áustria.
Sem nenhum treinamento para a realeza, Sissi passa por inúmeros problemas e situações conflituosas que são retratadas ao longo dos três filmes. Só digo isso: se você acha que tem problemas com a sua sogra, imagine se ela fosse a antiga imperatriz de seu país e fizesse de tudo para que seu marido mudasse de ideia e casasse com sua irmã? A vida definitivamente não foi fácil para Sissi.
É óbvio que, apesar de se embasar em um pano de fundo real, com personagens verdadeiros e histórias legítimas, o filme não é um retrato fiel da história de Isabel da Áustria (mais um nome para Sissi, porque tinham tão poucos). Muito romantizado, a película pode passar uma ideia de anacronismo, levando ideias modernas para tempos passados em que estas mesmas ideias não seriam concebíveis. Eu digo para o inferno com isso. São três filmes fabulosos, que contam uma linda história, não apenas um romance, mas também o caminho do amadurecimento de uma mulher, que não é apenas uma grande imperatriz, mas também uma esposa forte e uma mãe dedicada. Todos os caminhos tortuosos por que Sissi passa possuem uma forte mensagem de força e resistência, além de perseverança e luta.
Vale a pena ser visto não somente pelo enredo incrível e os personagens cativantes, mas também pelas mais belas paisagens que se apresentam, retratos da Áustria e da Hungria em tomadas que te deixam sem fôlego, apesar de a imagem não ser das melhores (dê um desconto, os filmes são da década de 50. E austríacos!). Recomendo também para que se prestigie a beleza de Romy, pouquíssimas atrizes conseguem se equiparar em charme e beleza, e, acreditem ou não, interpretando Sissi, personagem de apenas quinze anos, a atriz também tinha seus quinze anos! E apresenta enorme talento e um encanto irresistível. Sinto não conhecer mais de sua filmografia, mas a maioria é austríaca ou alemã e quase não os encontro aqui no Brasil.
Enfim, aqui fica minha recomendação de hoje. Até eu vou segui-la, agora com meu DVD novinho em casa já tenho um programão para o fim de semana (soou triste, mas é verdade.).
Um beijo,
Thaís Sampaio
Again and again and again and again….
Dia desses estava conversando com alguém sobre filmes favoritos. Enquanto conversávamos, soltei que já havia assistido ao filme “Bonequinha de Luxo” mais vezes do que poderia contar. A pessoa se assustou: como assim você assistiu o mesmo filme mais de um vez?! Eu só consigo assistir duas no máximo!
Fiquei grilada. Como assim digo eu. Assistir um filme bom apenas uma vez é como provar um excelente prato e nunca mais repeti-lo. Pelo menos é assim que eu penso. Para mim, um filme nunca é a mesma coisa sempre. Hoje mesmo, enquanto alternava entre os canais da tv, descobri que em cinco minutos passaria “Mensagem para você”, aquele com a Meg Ryan e o Tom Hanks (aquele que eu provavelmente já vi mais de 20 vezes). Ora, não pude resistir e assisti o filme todo pela milésima vez.Ri das mesmas piadas e ainda descobri piadas novas! Pequenos detalhes que nunca me chamaram atenção nas outras (muitas) vezes em que assisti esse filme.
E essa minha mania de repetição não se aplica apenas aos meus favoritos: mesmo tendo assistido duas vezes no cinema, essa semana ainda sentei (desta vez no sofá) para tentar mais uma vez entender o que diabos passava na cabeça de Ridley Scott com aquele louco “Prometheus”. Não entendi. E provavelmente ainda irei precisar de mais umas sessões para me convencer que não adianta tentar.
O meu ponto é que assim como você pode ouvir várias vezes a mesma música e ainda achar incrível, você também pode assistir ao mesmo filme repetidamente e manter todo o encanto e magia dele, sem tédio nenhum! Não vou mentir: de vez em quando eu coloco ” E o vento levou” e assisto na louca expectativa de que Scarlett e Rhett fiquem juntos, além de assistir mil vezes “A Mentira” só porque a Emma Stone está tão linda.
Deixo aqui meu manifesto em defesa daqueles que assistem não apenas duas ou três vezes um mesmo filme, mas muitas e muitas e que ainda conseguem se divertir e apreciar esses pequenos momentos junto a personagens tão familiares e queridos. E como atualmente só tenho feito isso, não escrevo nenhuma resenha hoje e me despeço com uma pequena listinha de filmes que já vi e revi milhares de vezes e recomendo. Detalhe, nessa lista só coloquei romances, mas também assisto outras coisas. É só porque esses são mais fáceis de assistir mil vezes.
Um beijo,
Thaís Sampaio.
Da minha listinha romântica:
- Bonequinha de Luxo (1961)
- My Fair Lady (1964)
- Sabrina (1954, peloamordedeus)
- Cinderela em Paris (1957)
- Stardust (2007)
- Mensagem para você (1998)
- Cartas para Julieta (2010)
- Anna Karenina (1948) (1997)
- Quanto mais quente melhor (1959)
- Os homens preferem as loiras (1953)
- Assim caminha a humanidade (1956)
- Gata em teto de zinco quente (1958)
- Summer Stock (1950)
- Teacher’s Pet (1958)
- Ardida como pimenta (1950)
- Carícias de Luxo (1962)
- Confidências a meia noite (1959)
Ok, confesso: tem muitos outros ainda, mas a lista está ficando grande #chateada
Like Crazy…
Aviso: recomendado para aqueles cujos corações estejam inteiros e que não sofram daquele terrível mal chamado saudade.
Do pouco conhecido diretor Drake Doremus, chega até nós esse filme que de primeira pode parecer clichê e monótono, com atores pouco conhecidos como o fofo Anton Yelchin (o atual Chekov de Star Trek) e a inglesinha linda Felicity Jones, que interpretou Catherine Morland na adaptação (inglesa, dã) de A Abadia de Northanger, da escritora Jane Austen.
Em Los Angeles, dois estudantes se apaixonam a primeira vista: Ela, uma inglesa com um visto de estudante nos EUA e ele, americano. Já dá para imaginar o que irá acontecer ao longo do filme… Os dois começam um relacionamento (daqueles que arrancam suspiros e sorrisos das moças mais românticas) e criam laços fortes ao longo de um ano inteiro. O problema surge quando a faculdade acaba e Anna se vê obrigada a voltar para Inglaterra, pela expiração do seu visto. Inicialmente, seriam necessários apenas dois meses para que ela pudesse renovar o visto e voltar para os EUA, mas a paixão fala mais alto e Anna decide prolongar sua estada com Jacob ilegalmente.
Os dois continuam juntos por mais alguns meses além do prazo do visto até Anna retornar para casa. Meses depois, ao tentar retornar para a América de férias, ela se vê proibida de pisar no país por ter violado o limite de seu visto de estudante.
Daí para frente os dois tentam de todas as maneiras continuar juntos, desistindo em muitos momentos, tentando seguir em frente, porém sempre voltando um para o outro.
O mais interessante é o trabalho em mostrar o amadurecimento dos personagens ao longo do tempo e como suas perspectivas e sonhos mudam. Os eventos se desenrolam com enorme rapidez, então a marcação do tempo se dá puramente pelos personagens, física e emocionalmente. O cabelo mais curto, uma roupa mais séria. Um olhar mais triste, palavras mais sábias. Tudo isso vai aos poucos nos dando a ideia de passagem dos anos, mudanças e crescimento.
Com uma pequena participação da fofa Jennifer Lawrence, o filme pode não parecer o melhor programa para uma noite fria como esta, mas ele com certeza irá te surpreender. Vale a pena ser visto para se apaixonar por essa história de amor.
Thaís Sampaio
sons confusos
É prática comum aos fins de ano serem lançadas as famosas listas dos “melhores do ano”. Existe pelo menos uma dessas listas para tudo que se possa imaginar e, claro, com filmes não é diferente. E foi no fim do ano de 2012 que o jornal New York Times lançou sua lista dos top 10 filmes de 2012. Figuravam lá cinco dos nove indicados ao Oscar (Amor, Lincoln, A Indomável Sonhadora, A Hora Mais Escura e Django Livre), A Perseguição com Liam Neeson, The Master do sempre genial PT Anderson, o francês “Goodbye, First Love” e “Nota de Rodapé”, selecionado em Cannes. Contudo, o décimo filme chamou a atenção especialmente.
Foi uma surpresa ver o primeiro longa do ex-crítico de cinema, Kleber Mendonça Filho, “O Som ao Redor”, figurar nessa lista. Escrito e dirigido por Kleber, “O Som ao Redor” retrata o cotidiano de um bairro de classe média-alta no Recife, Boa Viagem, que sofre uma grande reviravolta com a chegada de um grupo de segurança particular que chega para proteger a rua (ou milícia). A trama discorre sobre o paralelo entre os latifúndios da época colonial do Brasil com os “latifúndios” dos dias atuais no país e também sobre a pressão opressora da rotina, como se estivessemos vivendo dentro de uma panela de pressão, prestes a perder sua tampa, em uma grande explosão.
O problema é que, apesar da forte premissa, do bom uso das analogias entre um tempo passado e a cena atual de nossa sociedade, o filme é extremamente confuso. Em poucos momentos o diretor consegue chegar ao ponto que realmente deseja, prejudicando a transmissão da mensagem de seu roteiro. Porém, é necessária a justiça de dizer que ele possui um estilo forte, realmente marcante e se sua história não fosse tão imprecisa. A fotografia é bastante interessante, a edição é “suficiente” e as atuações são boas, porém comuns.
A motivação que eu tive para ver o filme foi, claramente, a inclusão do mesmo na famosa lista do jornal estadounidense. Pode ser que realmente eu não tenha entendido o filme e se alguém quiser conferir, vale a pena, existem boas atuações e bons planos-sequências das tomadas das cenas. Do contrário, julgo ser dispensável, ainda mais pelo que o filme mostrou que poderia ter sido. Será que os sons ao meu redor confundiram minha percepção ou apenas aguçaram-na?
Renato Furtado
um retorno em grande estilo
Após uma década entregando-se aos projetos de captura de movimentos, tais como “O Expresso Polar” e “A Lenda de Beowulf”, no ano passado, Robert Zemeckis voltou aos longas live-action. Em “O Voo” (2012), Denzel Washington (indicado ao Oscar por este papel) é o Capitão “Whip” Whitaker, alcoolatra e muito fã de cocaína, um piloto do mais alto gabarito que precisa guiar seu avião por uma tempestade e pousar em segurança em solo. Considerada uma missão impossível, ele consegue salvar quase todos os passageiros e se torna, instantaneamente, em herói nacional. Porém, a avaliação da queda da aeronave revela um problema maior para o piloto.
É uma jornada de redenção, um drama bastante humano e muito bem feito. Robert Zemeckis é especialista em filmes desse tipo, o que ele mostra principalmente em “Forrest Gump”, que lhe rendeu um Oscar e em “Náufrago” e aqui ele não faz diferente. É um ótimo contador de história e sua volta à esse estilo de filme me agradou muito. O que é importante destacar aqui são as boas atuações. Washington é incrível em seu piloto que acredita ser um herói mas que, na verdade, é um humano como qualquer outro que se possa ver. Sua atuação é forte e poderosa e ele prova, mais uma vez, que é um dos grandes atores de sua geração. Seu contrapeso é o também ótimo ator, Don Cheadle, que vive o advogado de Washington. Ele é o sensato, se tornando uma espécie de amigo do protagonista, até por ser o único que pode salvá-lo. Temos também Bruce Greenwood como um piloto aposentado e a não muito conhecida (pelo menos não por mim) Kelly Reilly que é o interesse amoroso do personagem principal, em seu papel de uma drogada em reabilitação que, de fato, busca se salvar.
Mas não posso me esquecer do ponto que talvez seja o mais alto do filme. A participação do sempre incrível John Goodman. Eu desafio a qualquer um que assista o filme a não rir com este personagem, o fornecedor de drogas oficial do Capitão. Goodman é exatamente como o diabo da música “Sympathy for the Devil”, canção que ele torna sua trilha sonora durante o filme. Ele prepara sua entrada com esmero conjuntamente aos tambores de Charlie Watts, baterista dos Rolling Stones, sem pressa e com cuidado, se apresenta diante de nosso olhos como um grande personagem e rouba todas as cenas, sendo quase impossível não ficar encantado em conhecê-lo. O motivo de ele não ter sido indicado ao Oscar de melhor ator coadjuvante permanece um mistério para mim. Ele é tão bom quanto Arkin em “Argo” e acho que pelo menos merecia ser indicado, apesar da concorrência desleal que sofreria.
Premiações à parte, esse aqui é “O Voo”, história original de John Gatins, indicado ao Oscar. Não chega a ser um filme incrível e memorável, mas é muito bom e vale muito a pena ser visto, sem sombra de dúvidas. Com uma trilha sonora do mais alto nível dominada pelos Stones, com participações dos Beatles, Traffic e outras grandes bandas, um trabalho de fotografia bastante competente e a boa mão de Zemeckis no comando, está aí um retorno em grande estilo. Principalmente em um filme sobre personagens com estilo de sobra.
Renato Furtado
uma “praia” para não visitar
Não gosto de Danny Boyle. Vou logo começando com uma negativa para deixar as coisas bem claras. Respeito o diretor e não opino sobre sua qualidade apesar de muitos dizerem que ele é ótimo, que ganha prêmios em qualquer lugar e que faz ótimos filmes. Respeito-o por ter uma carreira sólida e premiada e tento ver seus filmes com o menor preconceito possível. Mas, o motivo de não gostar dele é porque o estilo me incomoda. Não sei se é por ser real demais ou louco demais. Pós-explicações vamos ao filme de hoje, “A Praia” (2000) com Leonardo DiCaprio (segunda resenha seguida com ele, ganhou troféu de participação), Robert Carlyle, Tilda Swinton e mais uns outros atores.
O enredo se baseia, simplesmente, em ideias ruins de aventureiros. Richard (DiCaprio) é um jovem, do tipo moleque que saiu de casa e está descobrindo as maravilhas (ou não) de um país exótico, no caso, a Tailândia. Ao chegar em seu quarto de hotel, entra em contato com um drogado chamado apenas de “O Perdedor” (Carlyle) que o instrui através de um mapa da existência de um lugar paradisíaco e de difícil acesso, no meio do oceano. No dia seguinte, Richard encontra o mapa e, ao ir ao quarto do seu chapado amigo, encontra-o morto, entre manchas de sangue na parede e pulsos cortados. Impulsionado por isso, decide convidar uma moça francesa, por quem se apaixonou, e seu namorado para embarcarem com ele na viagem à tal praia. Ao chegar ao local, deparam-se com certos perigos e problemas que eles, definitivamente, não esperavam encontrar.
Ok, uma história de aventura baseada em péssimas ideias. Uma trama antiga, mas que normalmente, entretem. Aqui, nem isso. Danny Boyle passa longe do entretenimento e, apesar de raros bons momentos atrás das lentes, consegue transormar um roteiro que já era confuso em algo ainda menos plausível simplesmente pela maioria dos arcos mais importantes, terem acontecido sem o menor sentido. A cena do ataque do tubarão aos suecos é de um realismo impressionante e que me incomodou profundamente. Elemento desnecessário à trama, que ao invés de acrescentar ao filme, acabou por acrescentar mais um erro à lista de erros. A cena do videogame, idem.
Para ser justo, o filme é bonito porque se passa em uma das locações mais lindas que já vi, o arquipélago Phi Phi na Tailândia. Tilda Swinton me assusta eternamente com seus papeis e aqui foi bastante competente, assim como DiCaprio em seu papel de jovem inconsequente. Fora isso, não tenho muito mais a declarar. São duas horas de película que são totalmente dispensáveis e por isso não vou me alongar tentando achar alguma coisa a mais para escrever sobre. Atire bolinhas de papel na lixeira, ouça músicas ruins dos anos 80. Faça o que quiser, mas perca o seu tempo de uma forma melhor do que ver esse filme.
Renato Furtado
a linha que separa o bom, do incrível
Manter uma carreira estável no cinema não é tarefa fácil. Manter uma carreira estável e, principalmente, autoral é um desafio para poucos. Desafio que Martin Scorsese já cumpriu faz tempo, sendo o diretor de títulos como “Taxi Driver” e “Os Bons Companheiros” . E, depois de vencer o Oscar de melhor diretor por “Os Infiltrados” em 2006, quatro anos depois, o diretor volta à ficção dirigindo “Ilha do Medo” (2010), tema desta resenha.
O filme se passa na prisão psiquiátrica de Ashecliffe, onde uma das “pacientes”, Rachel Solando, fugiu misteriosamente sem deixar pistas. Para solucionar o caso, dois policiais federais são chamados, Teddy Daniels (DiCaprio) e Chuck Aule (Mark Ruffalo). Mas o que parece ser apenas um caso de fuga, acaba se tornando uma situação maior, mais perigosa e talvez irreversível. Um enredo claramente forte, de premissas sólidas. A primeira coisa que pensei foi que seria um thriller psicológico dos melhores. Vi que estava errado.
Scorsese é um dos melhores diretores da história por saber transformar técnicas básicas de direção em momentos de puro brilhantismo. Ele sabe usar a fotografia correta (aqui acertando em cheio ao dar um clima noir) nos momentos certos, sabe distanciar a câmera e se valer do enquadramento necessário para tornar a cena o melhor possível, parecendo cada vez mais atingir seu auge técnico (ver “A Invenção de Hugo Cabret”) e estético. No quesito escolha de atores foi feliz (mas não o suficiente) também ao escalar DiCaprio para o papel principal e atores como Mark Ruffalo, Michelle Williams e os imortais Ben Kingsley e Max Von Sydow em papéis coadjuvantes. Até aí, tudo certo.
Porém, na hora de estabelecer mais um filme antológico em sua coleção, ele não pareceu firme o suficiente. Sua zona de conforto gira em torno dos dramas policiais e ali ele permanece como bastião e mestre dos filmes de gângster. Quando chega seu momento de brilhar nos filmes de suspense, se utilizar de todo o medo possível previsto no título da película para assombrar seus espectadores, ele raramente o faz, pouco utilizando as tecnologias ao seu dispor para criar momentos de puro terror, próprios de uma prisão psiquiátrica esquecida e temida, e aqui acaba por transformar o que poderia ser um título digno de Hitchcock, em um drama policial com vislumbres de um drama psicológico. Era uma saída viável para contar a história que ele tinha em mãos, mas não acredito que tenha sido a melhor escolha. É claro que a culpa não é completa do diretor. O trabalho de Thelma Schoonmaker, indicada a sete estatuetas do Oscar e vencedora em três ocasiões, surpreendentemente deixa a desejar. DiCaprio convence, mas não encanta, sendo inferior ao seu incrível elenco de apoio.
São esses os fatores que limitam “Ilha do Medo” à condição de ser apenas um bom filme. Vale a pena ver? Vale, Scorsese é Scorsese, incrível em quase todos os momentos, com falhas ou sem falhas. O filme é sim muito bom, mas fica claro que entre estes erros e acertos, todo o potencial apresentado não é atingido, desenhando a linha que separa o bom, do incrível.
Renato Furtado
Jovens Ad..ZzzZz
Crescer não é tarefa fácil. Muitas vezes desejamos ter a capacidade de voltar para outras épocas, tempos melhores. Se você não souber se desapegar e seguir em frente, no entanto, pode passar sua vida inteira preso a seus “dias de ouro”, tentando entender porque as coisas não funcionam mais daquela maneira e porque diabos você terminou do jeito que terminou. Esse é o foco do filme “Jovens Adultos”, dirigido por Jason Reitman e que tem como protagonista a belíssima Charlize Theron.
Theron vem no papel de Mavis, uma mulher nos seus trinta e sete, trinta e oito anos, que escreve romances adolescentes de uma série de “quase” sucesso. Sua vida se resume a dormir, beber e passar algumas horas na frente da tela do computador tentando escrever. Ela claramente já viu dias melhores e tudo piora quando recebe por e-mail um convite para conhecer o bebê recém-nascido de seu ex-namorado de adolescência.
Mavis se convence então, que seu antigo namorado está preso em uma vida detestável e que ela precisa resgatá-lo daquele inferno que seria a vida de marido e pai. Ela parte rumo a sua cidade natal, lugar onde todas as lembranças a assombram e é confrontada não somente pelo seu passado, mas principalmente pelo seu presente.
Está montado o esqueleto para um roteiro do que poderia resultar em uma excelente dramédia, com que muitos de nós iriam se identificar. Poderia ser, claro. Com um ritmo absurdamente arrastado, o filme nos apresenta a personagens detestáveis, com nenhum carisma e que, falando por mim, irritam além do imaginável.
Apesar da excelente interpretação de Charlize Theron, sua personagem tem uma personalidade e maneiras tão desprezíveis que não é capaz de despertar a menor sensibilidade ou compaixão. Os relacionamentos apresentados ao longo da trama são terrivelmente superficiais, sem nenhum aprofundamento em questões realmente válidas, mantendo o espectador afastado dos pontos que seriam de interesse na trama. Pontos como a verdadeira situação psicológica de Mavis, suas frustrações, decepções e expectativas são deixados de lado e enxergamos apenas uma personagem monótona com quase quarenta anos e comportamento adolescente.
O que deveria ser um filme com alto caráter reflexivo sobre o crescimento e amadurecimento individual se transforma em uma versão piorada de “Grande menina, pequena mulher”, filme que por si só já não acrescenta em nada. Todo o potencial desta produção é jogado fora pouquinho por pouquinho em diálogos patéticos e vazios, sem aprofundamento psicológico algum e em cenas longas e cansativas, muitas vezes desnecessárias para a construção do filme.
Um verdadeiro desperdício do talento de Theron e também uma supervalorização de atores medíocres como Patton Oswalt, que até agora ainda não conseguiu se envolver em um projeto realmente sério ou relevante. Pela primeira vez, eis um filme que não recomendo assistirem. Péssimo uso de quase duas horas, que poderiam ser gastas em coisas infinitamente mais produtivas, como em tirar o atraso do sono ou atirar bolinhas de papel na lixeira.
Um beijo e até a próxima,
Thaís Sampaio.

